Doença explicada · Saúde da mulher

SOMP, a antiga SOP: o que é, como se diagnostica e como se trata

Dr. Bruno Bouça, Médico Especialista em Endocrinologia e Nutrição (OM 62537) · · 3 min de leitura

A síndrome dos ovários poliquísticos (SOP) é uma das alterações hormonais mais frequentes nas mulheres em idade fértil. Em 2026 passou a chamar-se SOMP – Síndrome Ovárica Metabólica Poliendócrina. A doença e o tratamento mantêm-se; muda o nome, que passa a descrever melhor o que se passa.

Porque mudou o nome

O nome antigo sugeria que o problema eram «quistos» nos ovários. Na verdade, não são quistos, e a doença não se limita aos ovários: envolve várias hormonas e o metabolismo. O novo nome resultou de um processo de consenso internacional publicado na revista The Lancet.

O que é a SOMP

É uma condição multifatorial, com alterações hormonais e metabólicas que afetam a ovulação, aumentam os androgénios (hormonas masculinas, que também existem na mulher) e alteram o aspeto dos ovários. Segundo a guideline internacional de 2023, afeta cerca de 10–13% das mulheres em idade reprodutiva. Mais do que uma questão de fertilidade, é uma condição de todo o organismo, com impacto metabólico, cardiovascular e psicológico.

Como se manifesta

  • menstruações irregulares ou ausentes;
  • excesso de pelos (hirsutismo), acne ou queda de cabelo;
  • dificuldade em engravidar;
  • ganho de peso ou dificuldade em emagrecer;
  • resistência à insulina, mesmo em mulheres magras.

Como se diagnostica

Nas mulheres adultas, o diagnóstico exige pelo menos 2 de 3 critérios (critérios de Roterdão): ciclos irregulares ou ausência de ovulação; sinais de excesso de androgénios, visíveis ou nas análises; e ovários com aspeto poliquístico na ecografia (20 ou mais folículos num ovário, ou volume do ovário superior a 10 mL). É sempre necessário excluir outras causas.

A SOMP associa-se a resistência à insulina, diabetes tipo 2, hipertensão, alterações do colesterol, apneia do sono, depressão e ansiedade, pelo que estes aspetos também devem ser avaliados.

Como se trata

O tratamento é individualizado e depende dos objetivos de cada mulher. O estilo de vida é a base: alimentação equilibrada, exercício regular e, quando há excesso de peso, uma perda de 5 a 10% do peso já traz benefícios relevantes. Conforme o caso, podem usar-se:

  • contracetivos orais combinados, para regularizar os ciclos e reduzir os androgénios;
  • metformina, para melhorar a sensibilidade à insulina;
  • letrozol ou clomifeno, para induzir a ovulação;
  • espironolactona, para o excesso de pelos e a acne.

E os agonistas GLP-1?

Na SOMP, a resistência à insulina faz subir a insulina, que por sua vez aumenta os androgénios e perturba a ovulação. Os agonistas GLP-1, como o semaglutido e o liraglutido, ajudam a perder peso e a melhorar a sensibilidade à insulina.

Em 2026, uma meta-análise de ensaios aleatorizados comparou os GLP-1 com a metformina em mulheres com SOP. A taxa global de gravidez não melhorou de forma significativa. A gravidez espontânea foi mais frequente com GLP-1 (certeza moderada), sem efeito demonstrado nas gravidezes por fertilização in vitro (certeza baixa). Ainda não há dados sobre nados-vivos. É um sinal promissor, mas a evidência ainda é limitada, e a guideline internacional de 2023 continua a privilegiar o estilo de vida e as terapêuticas com eficácia comprovada.

Segurança

Os agonistas GLP-1 não devem ser usados na gravidez. No caso do semaglutido para o controlo do peso, o tratamento deve ser suspenso pelo menos 2 meses antes de uma gravidez planeada. Fale sempre com o seu médico antes de iniciar ou parar um medicamento.

A SOMP não tem cura, mas pode ser controlada. Um diagnóstico atempado e um acompanhamento individualizado fazem toda a diferença.

Este artigo é informativo e não substitui uma consulta.

Referências

  1. Teede HJ, Tay CT, Laven JJE, et al. Recommendations From the 2023 International Evidence-based Guideline for the Assessment and Management of Polycystic Ovary Syndrome. J Clin Endocrinol Metab. 2023;108(10):2447-2469. doi:10.1210/clinem/dgad463
  2. Teede HJ, Khomami MB, Morman R, et al. Polyendocrine metabolic ovarian syndrome, the new name for polycystic ovary syndrome: a multistep global consensus process. Lancet. 2026;407(10545):2329-2339. doi:10.1016/S0140-6736(26)00717-8
  3. Kar E, Yeh J, Efe MA, Çelik HG, Bozdağ G, Baştu E. The effect of glucagon-like peptide-1 receptor agonists versus metformin on pregnancy rates in women with polycystic ovary syndrome: a systematic review and meta-analysis of randomized trials. Eur J Obstet Gynecol Reprod Biol. 2026;327:115499. doi:10.1016/j.ejogrb.2026.115499
  4. European Medicines Agency. Wegovy (semaglutide): EPAR – Product Information (Summary of Product Characteristics). ema.europa.eu

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